EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM

A única zoom Fresnel do mundo

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Fevereiro/2015 – A EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM é a única objetiva zoom da Canon a usar a tecnologia “diffractive optics”. Conhecida fisicamente como “design Fresnel”, a ideia dos elementos “DO” é focar a luz num espaço menor que os vidros tradicionais por refração. Gravados com formas circulares concêntricas, um grupo destes elementos consegue “entortar” a luz para um ponto focal bem mais curto, num conjunto menor, com bem menos peças, e relativamente mais barato. Dito e feito: a 70-300mm DO mede apenas 99mm fechada e pesa 28% menos que a equivalente f/4-5.6 L IS USM, mas com qualidade de imagem semelhante, por US$50 a menos! (english)

Canon EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM

Ela chegou no vlog do zack completamente por acaso em 2010. Há cinco anos atrás eu sequer entendia o que significavam estes numerinhos nas caixas, e simplesmente pedi na loja “uma lente para fotografar de longe, mas nada muito grande”. E a vendedora da Calumet Photographic (L.A.) me empurrou uma 70-300mm DO, exatamente o que eu precisava. Até hoje em 2015 depois de toda esta experiência com equipamentos fotográficos eu não escolheria outra lente além da diffractive optics para os 70-300mm. A construção é excelente, o design é compacto e a qualidade das imagens é muito boa. Será que esta é a zoom telephoto certa para todo mundo? Boa leitura!

CONSTRUÇÃO E OPERAÇÃO

Canon EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM

Em 720g de 9.9cm (fechada no 70mm) e 18 (!) elementos em 12 grupos, a EF 70-300mm IS DO USM fisicamente não tem nada a ver com uma objetiva zoom telephoto. Curta demais e relativamente “gorda” para a abertura f/4.5-5.6, ela mostra a ousadia da Canon em tentar coisas novas. Num mix de metais e plásticos sólidos, nada balança fora do lugar e a minha parece nova com cinco anos de uso. Mas sem weather sealing, sem anéis gigantes, e com um tubo telescópico de dois estágios, esta DO não foi pensada para trabalhos extremos por exemplo sob chuva ou poeira. Por isso ela recebe um anel verde (DO) na frente, e não a benção da série L (anel vermelho).

Canon EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM

A 70-300mm diffractive optics definitivamente entrega um produto “exótico” de US$1399 porque cabe tranquilamente de pé na mochila, enquanto as zoom semelhantes tem de ir deitadas. É o principal selling point do modelo. Ela é 4cm mais curta que as EF 70-300mm f/4-5.6 IS USM e L IS USM, ambas em 14.22cm, e você pode levar o telephoto full frame para qualquer lugar. Eu por exemplo entrei com a DO + EOS 60D num jogo oficial de volley sem chamar a atenção, e fotografei sem atrapalhar os presentes da platéia. Ela é ótima para fotografar de longe sem ninguém perceber e agradeço que seja preta do lado de fora, mais discreta.

"Volley" com a EOS 60D em f/6.7 1/1500 ISO5000 @ 300mm.

“Volley” com a EOS 60D + EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM em f/6.7 1/1500 ISO5000 @ 300mm.

Com o preço nas alturas era de se esperar o set completo de recursos Canon: IS da terceira geração, com três stops e dois modos; motor USM do tipo ring, silencioso e rápido; e até o kit completo na caixa, com hood e pouch. Do lado de fora a operação é simples com dois anéis feitos de metal emborrachado, e três switches do lado esquerdo para ligar/desligar as funções. Desde o lançamento eles mudaram de forma, e as lentes de fabricação recente tem os botões rentes ao corpo, mais difíceis de você bater sem querer. Na frente os filtros de ø58mm são os mesmos da 70-300mm não L, mas não rodam, deixando claro o aspecto “premium” da diffractive optics.

Canon EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM

“Premium” que eu não diria sobre a operação porque o anel de zoom é ruim. Com pouco espaço no corpo, ele tem apenas 20mm e é duro demais para sair dos 70mm e ir até os 300mm. Mas nem por isso a Canon conseguiu evitar o zoom creep (quando o tubo mexe sozinho por causa do peso) e há um quarto switch (LOCK) a direita para travar a peça no lugar. No dia a dia eu acabei pegando o hábito de apontar a câmera para baixo quando eu queria “abrí-la” (300mm) e para cima quando queria “fechá-la” (70mm); afim de pegar uma ajudinha da gravidade. Funciona, porém a 70-300mm comum é infinitamente mais suave e gostosa de usar. Ainda não usei a série L.

Canon EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM

Por outro lado o AF e o IS são tipicamente Canon e fazem você agradecer por existir este fabricante no mercado. Nossa, como eles são fantásticos! O AF é extremamente quieto e rápido, que já acostumamos com os ring USM. Mas ele também consegue acompanhar movimentos, ótimo para esportes. A chance de acerto que eu tive com a EOS 5D Mark II foi de praticamente 100% (!), e olha que esta máquina não foi feita para ação. O anel de foco na frente também é muito bom, bem maior que o de zoom apesar de usá-lo pouco. O movimento é suave e você sente que ele é de metal, é mais gelado que o restante da lente. E o IS segura a composição no lugar para compensar a abertura f/5.6 em pouca luz, ou permitir efeitos criativos sem um tripé. É bem óbvio o público alvo desta lente: viajantes que queiram levar o mínimo de equipamento.

“Skater” com a EOS 5D Mark II + EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM em f/10 1/500 ISO800.

“Skater” com a EOS 5D Mark II + EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM em f/10 1/500 ISO800.

A taxa de acerto é perfeita com a EOS 5D Mark II. O_o

A taxa de acerto é perfeita com a EOS 5D Mark II. O_o

Em cima a janelinha de distância é mais funda que o normal e mostra as distâncias em pés e em metros, além de escalas infra-vermelho para as posições 70mm, 100mm e 135mm. No geral a operação é diferente porque esta lente é diferente. Ela é pesada para o tamanho, o anel de zoom é pesado, mas estamos falando dos 300mm no final das contas. Ela é melhor que a 70-300mm comum que tem o foco barulhento (apesar de USM) e o filtro da frente que gira. E não se compara a série L porque é muito mais curta. A DO leva o telephoto a novas situações.

QUALIDADE DE IMAGEM

“Boi Zebu” em f/5.6 1/500 ISO100 @ 300mm.

“Boi Zebu” em f/5.6 1/500 ISO100 @ 300mm. Arquivos raw disponíveis no Patreon.

A tecnologia DO usa um princípio diferente das lentes tradicionais. Enquanto as outras objetivas focam a imagem com elementos esféricos por refração, que é a mudança da direção da luz quando ela passa de um meio para outro (no caso, do ar para o vidro), o design Fresnel propõe círculos como obstáculos a luz. Desta forma é possível ”entortar” a direção do feixo num espaço muito menor pelo princípio da “difração”, que é a mudança de direção de uma onda (eletromagnética, como a luz) ao passar por tais obstáculos. O elemento “DO” tem degraus concêntricos gravados na lente, com espaçamento na casa dos micrômetros, quase como uma lente asférica, mas muito mais complexa e precisa. Todas as fotos com a EOS 5D Mark II.

“Wat Mongkol Nimit” em f/5.6 1/250 ISO100 @ 220mm.

“Wat Mongkol Nimit” em f/5.6 1/250 ISO100 @ 220mm.

Com tanto controle sobre o caminho da luz, o grupo DO é capaz de focar perfeitamente os espectros diferentes de cor eliminando as aberrações cromáticas, além de garantir nitidez sem vidros exóticos de baixa dispersão. Mas assim como as lentes asféricas, o desfoque fica com as formas dos vidros pelos quais a luz passou. O bokeh não é tão suave quanto uma prime (qual zoom é?), mas isto é subjetivo. Na distância absolutamente mínima de foco nós podemos ver um vazamento de luz em pontos de contraste, já que fisicamente é impossível focá-la num ponto curto demais. E a vinheta é alta e precisamos fechar até f/16 para eliminá-la por completo.

“Buddha” em f/8 1/250 ISO160.

“Buddha” em f/8 1/250 ISO160.

Mas se eu tivesse de definir numa palavra as fotos da EF 70-300mm f/4.5-5.6 IS DO USM, ela seria “excelente”. Não se enganem com estes comentários de “blooming em foco mínimo” e “bokeh não tão suave”. Na minha opinião a zoom DO está muito na frente por exemplo da EF 70-200mm f/4L USM que sofre demais com linhas coloridas nas bordas (CA lateral), que esta 70-300mm não sofre. Fora do foco mínimo, o contraste também é perfeito, seja para fotografar elementos gráficos, paisagens ou silhuetas contra a luz. As cores são vibrantes e há resolução de sobra.

“As fotos, ó, tão ok!” em f/4.5 1/60 ISO3200 @ 180mm.

“As fotos, ó, tão ok!” em f/4.5 1/60 ISO3200 @ 180mm.

De f/4.5 (até 180mm) a f/5.6, as imagens em foco mínimo tem um leve aspecto de sonho, com vazamento de luz em pontos de contraste percebidos em ampliação máxima. Só acontece no foco de 1.40m e você realmente precisa “provocar” a objetiva para vê-lo, como alguns sites fazem ao fotografar tabelas de resolução fora do infinito. No dia a dia, com fotos normais como as do zack, de cem arquivos que eu escolhi neste review, só dois mostraram esta característica.

“mini-macaco” em f/5.6 1/350 ISO800 @ 240mm.

“mini-macaco” em f/5.6 1/350 ISO800 @ 240mm.

Crop 100%, notável blooming em abertura máxima na distância mínima de foco.

Crop 100%, notável blooming em abertura máxima na distância mínima de foco.

O importante é que o miolo do quadro é nítido no plano focal, muito mais que as zoom de kit. As bordas sofrem um pouco com falta de nitidez, inclusive no eixo X e Y, mas sinceramente vocês já estão carecas de saber deste comportamento de todas as zoom que eu já falei por aqui, pelo menos as com menos de US$2000 no preço. Precisa de resolução nas bordas? Trabalhe com as aberturas otimizadas, geralmente fechando dois ou três stops na sua objetiva. De resto, no centro, totalmente aberta a DO é o suficiente para ampliar tranquilamente os arquivos e ver os detalhes.

“Love” em f/5 1/320 ISO100 @ 140mm.

“Love” em f/5 1/320 ISO100 @ 140mm.

Crop 100%, nitidez impecável.

Crop 100%, nitidez impecável.

Fechando para f/8, f/11, até f/13, uma surpresa: as bordas melhoram sim, mas nunca chegam a ficar perfeitas como uma prime. É só lá no f/16 que a 70-300mm atinge resolução impecável para paisagens, abertura tradicional para estas situações que exigem profundidade de campo longa. Também a vinheta é super acentuada antes de chegar no f/16, cuidado com exposições escuras em f/8. Mas eu estou sendo muito, muito meticuloso e escrevendo um review. Qualquer sujeito interessante compensa um arquivo com defeitinhos ópticos e desconheço composições interessantes com o motivo quase saindo do quadro, onde nenhuma lente é perfeita.

“Snack” em f/14 1/50 ISO100 @ 235mm

“Snack” em f/14 1/50 ISO100 @ 235mm.

Crop 100%, pixel peep cheio de detalhes.

Crop 100%, pixel peep cheio de detalhes.

Outro destaque principal da tecnologia DO é como ela lida com aberrações cromáticas, que são absolutamente canceladas quando a luz é focada com precisão de micrômetros. Simplesmente não há qualquer forma de CA para comentar, exceto raras bordas roxas em pontos de muito contraste. Aquelas bolhas magenta e verdes ao redor de prédios e letreiros… não… existe! Esta é a primeira e única objetiva que eu tenho no kit que absolutamente não exibe aberração cromática.

“VO” em f/6.3 1/40 ISO100 @ 195mm.

“VO” em f/6.3 1/40 ISO100 @ 195mm.

Crop 100%, aonde estão as aberrações cromáticas? O_o

Crop 100%, aonde estão as aberrações cromáticas? O_o

“supperclub” em f/6.3 1/40 ISO100 @ 140mm.

“supperclub” em f/6.3 1/40 ISO100 @ 140mm.

Crop 100%, as lentes diffractive optics não sofrem com aberrações cromáticas. :-)

Crop 100%, as lentes diffractive optics não sofrem com aberrações cromáticas. :-)

Cores e contraste são altos e com a qualidade Canon. Dá para exagerar no pós-processamento afim de conseguir impressões de saltam no papel. É tudo bem neutro como as outras EF são, vermelho onde tem de ser, azul onde tem de ser, ótimo para quem viaja e fotografa “cultura”. Países asiáticos com templos e ícones coloridos funcionam muito bem e são o oposto da fotografia P&B. Tem lugares, especialmente capitais ocidentais, que eu prefiro fotografar em P&B de tão sem graça que são os motivos. Mas do outro lado do mundo, berço destas fabricantes, a cores são reproduzidas com saturação excelente.

“Pássaro” em f5/6 1/800 ISO100 @ 70mm.

“Pássaro” em f/5.6 1/800 ISO100 @ 70mm.

"Dolores del Río” em f/11 1/160 ISO100 @ 95mm.

“Dolores del Río” em f/11 1/160 ISO100 @ 95mm.

“Todas querem ser Lotus” em f/8 1/250 ISO640 @ 300mm.

“Todas querem ser Lotus” em f/8 1/250 ISO640 @ 300mm.

A resistência a flaring também é boa apesar dele acontecer de forma bizarra. Quando algum reflexo interno “ilumina” o conjunto DO, as linhas concêntricas do elemento são projetadas no sensor, gravando uma padronagem repetitiva na imagem. Mas é raro, só vi sem o hood e quando a luz entrava por algum dos limites do quadro. Atrás dos sujeitos, por exemplo para registrar silhuetas, não aconteceu.

“Surfer” em f/8 1/1000 ISO125 @ 80mm.

“Surfer” em f/8 1/1000 ISO125 @ 80mm.

Dissolver o segundo plano trabalhando formato, abertura, distância entre fotógrafo, sujeito e fundo nunca é papel de uma zoom. E eu troco uma foto com o fundo desfocado por uma nítida em todos os planos a qualquer momento. Mas rola uma controvérsia sobre o aspecto do bokeh da 70-300mm DO porque os pontos de luz acabam mostrando o caminho que a luz fez; neste caso um elemento óptico com diversos círculos concêntricos gravados. Há quem diga que parece um “efeito camisinha”, com círculos de borda escura e miolo mais claro; mas que francamente eu não ví nas minhas fotos. 300mm e f/5.6 são suficientes para baixa profundidade de campo.

“Retrato” em f/5.6 1/250 ISO400 @ 300mm; vai falar que o desfoque não é suave?

“Retrato” em f/5.6 1/250 ISO400 @ 300mm; vai falar que o desfoque não é suave?

“Sinos” em f/5.6 1/250 ISO1600 @ 300mm; dá pra isolar o sujeito tranquilamente!

“Sinos” em f/5.6 1/250 ISO1600 @ 300mm; dá pra isolar o sujeito tranquilamente!

“Macaco” em f/8 1/750 ISO400 @ 300mm; até em f/8 dá para desfocar o fundo.

“Macaco” em f/8 1/750 ISO400 @ 300mm; até em f/8 dá para desfocar o fundo.

Crop 100%, e esta nitidez, como lidar?

Crop 100%, e esta nitidez, como lidar?

VEREDICTO

Se ela serve pra todo mundo? Infelizmente não. O preço de US$1399 é bem alto e você paga pela inovação. Com US$50 a mais você pode levar a EF 70-300mm f/4-5.6L IS USM, que é mais clara nos 70mm, tem weather sealing e relativa melhor qualidade de imagem (a resolução é maior mas as aberrações cromáticas também). Porém a DO cabe na mochila que a série L e a linha tradicional não cabem. Sem dúvidas é uma objetiva interessante, mas a Canon já devia ter barateado a produção, baixando o preço para uns US$899 no máximo (US$799 ideal). Paga quem quer. Mas se você precisa dos 300mm “compactos”, esta é a melhor opção. Boas fotos!