Yongnuo 35mm f/2

Tirando água de pedra

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Junho/2017 – A 35mm f/2 é a segunda objetiva apresentada pela chinesa Yongnuo, marca conhecida pelos flashes e acessórios alternativos a Canon e Nikon, que chegam ao mercado geralmente por um preço mais baixo que as concorrentes japonesas. Lançada em 2015 depois da 50mm f/1.8, a 35mm f/2 segue um caminho diferente da irmã mais velha. Enquanto a cinquentinha era um clone da plastic fantastic EF II da Canon, essa 35 é um projeto totalmente novo, maior e mais leve que a antiga EF 35 f/2. O apelo é o mesmo: por US$99 você leva uma objetiva com foco automático, abertura automatizada e projeto óptico completo do formato 135 full frame e equivalência aos 56mm no APS-C. Mas será que a Yongnuo foi longe demais? Dá pra fazer uma prime grande angular full frame por menos de US$100? Vamos descobrir! Boa leitura. (english)



CONSTRUÇÃO E OPERAÇÃO

Em 73 x 59mm de 155g, a Yongnuo 35mm f/2 é muito maior e mais leve que a Canon EF 35mm f/2. Enquanto eu não mostrarei as duas lado a lado, eu lembro como a Canon era sólida e tinha uma operação diferente, com anel de foco rente ao corpo e janela de distância na frente; atributos que a Yongnuo não tem. Então este é um projeto novo e deve ser tratado como tal, apesar da distância focal e abertura serem idênticas a EF. Nem o design nem as funções da Yongnuo são parecidos com a Canon, portanto não vale usar o argumento “cópia barata” que eu usei no review da 50mm f/1.8. E fico feliz que seja assim: se eles tem um departamento criando estas coisas, dá pra avaliar a linha com clareza, pensada realmente no baixo custo ao invés de ser um clone das marcas maiores.

Yongnuo 35mm f/2

Porém, apesar do projeto novo, não há qualquer glamour na Yong 35mm f/2 de US$99. O preço é baixo e, como vocês podiam imaginar, a qualidade da construção também é. Com dois tubos de plástico unidos por uma rosca helicoidal, o que mais chama a atenção é como tudo balança, dando a impressão de desalinhamento logo que tiramos da caixa. Quando você pega nas mãos, dá pra sentir um tubo mexendo dentro do outro, com quase 1mm de “folga” entre eles; impensável para resolução de ponta a ponta como esperamos de uma prime. Sim, já vi peças soltas em zooms de kit, ou até imprecisões em primes topo de linha das marcas principais, mas nada se compara a essa Yongnuo. E aqui mora o maior problema: há boas chances de suas fotos saírem ruins porque os tubos não estão alinhados e focados, além das deficiências ópticas do projeto baratinho.

Yongnuo 35mm f/2

A operação é simples com o anel de foco manual na frente e só. Ele é emborrachado, nos mesmos moldes da Yongnuo 50 f/1.8, gostoso ao toque e bem melhor que anéis “100% plástico” (ou metal) que vemos por aí. Infelizmente o atrito entre a peça e o tubo da objetiva é ruim, com aquela resposta “seca” de plástico-com-plástico que estamos acostumados nos equipamentos baratos. Além disso o caminho do foco mínimo (25cm) até o foco no infinito é curto em 80º, eliminando qualquer chance de precisão. E como o tubo interno nunca fica totalmente “guardado” no tubo externo, há boas chances de qualquer impacto na mochila piorar ainda mais o desalinhamento. E tem mais: o anel de foco também balança! Tanto para frente/trás quanto para os lados, ao tentar focar manualmente, a objetiva “não fica” na distância que eu escolhi, tirando a nitidez nas bordas.

Yongnuo 35mm f/2

Já o foco automático é feito por um micro motor DC, que usa engrenagens barulhentas para mover o tubo interno, inteiro, para frente e para trás. Ele mexe até 1cm para fora da objetiva no foco mínimo, num movimento pouco suave, que, adivinhem, também balança bastante os tubos entre si. E o anel de foco manual gira quando o motor está em uso, o que pode atrapalhar quem tem mãos grandes. Por exemplo eu que testei com a EOS M, que praticamente não tem grip, não conseguia apoiar a objetiva sem ela raspar o anel de foco manual nas minhas mãos. Pelo menos o foco é razoavelmente rápido: para ir do mínimo ao infinito, leva cerca de 1 segundo; e ajustes menores são feitos num piscar de olhos, pelo menos com as câmeras dotadas de AF phase.

Yongnuo 35mm f/2

Na frente a Yong aceita filtros de ø52mm que vão numa rosca de plástico. Como não há baioneta para o parasol (a Canon EF 35mm f/2 tem), ele deve ser adaptado na frente, ocupado o lugar dos filtros. Atrás o mount de metal passa a impressão de qualidade que não vemos no restante do corpo, com vários parafusos no lugar e nada de fios à mostra. Evidentemente não há weather sealing e tudo é “básico” como esperávamos dos US$99. Infelizmente a Canon abandonou o mercado de baixo custo com o lançamento da 35mm f/2 IS USM (US$599), e agora quem precisa desta especificação e tem o orçamento apertado, tem de ver a Yongnuo como opção. A construção é ruim e pode causar desalinhamentos, e é o meu maior problema em recomendá-la.



QUALIDADE DE IMAGEM

“Biker” em f/2.8 1/640 ISO200.

“Biker” em f/2.8 1/640 ISO200.

Com um projeto de 7 elementos em 5 grupos montados em duplo-Gauss, também não devemos esperar muito da perfomance óptica da Yongnuo 35mm f/2. E ela entrega resultados dúbios: enquanto eu tive momentos de brilhantismo nas ruas com a EOS M e f/stops conservadores, ela nunca fica realmente nítida na máxima f/2, que seria o propósito de tê-la no kit. A resolução é sofrível totalmente aberta por causa da distorção esférica, que não projeta de fato um plano “plano” no sensor, deixando as bordas fora de foco. E as aberrações cromáticas de eixo são visíveis em exposições com muita luz, nenhuma novidade para primes de grande abertura. Mas o look geral das imagens é muito ruim, com desfoque pobre, linhas repetitivas, plano de foco suave… Difícil de recomendar até se a sua vida tenha sujeitos muito interessantes, que sobressaiam nas imagens. Todas as fotos com a  Canon EOS M; arquivos raw disponíveis no Patreon.

“S” em f/6.3 1/500 ISO100.

“S” em f/6.3 1/500 ISO100.

O lado bom é que totalmente aberta até dá pra viver com a Yongnuo, se você não pretende fazer prints grandes. A resolução é ruim no quadro todo, funcionando apenas para saídas web de fotos sob pouca luz, que outrora dependeriam do ISO alto ou de obturadores lentos para conseguir a exposição correta. Nas bordas a impressão é de “vidros de ampliação”, com esticamento dos sujeitos, que saem sem definição e contraste; apesar de “estarem lá”. Este “apesar de estarem lá” que é interessante: os detalhes estão lá, e você consegue vê-los; mas também estão lá um “fantasma do detalhe” (falta de contraste) e uma versão colorida do fantasma (aberração cromática). E no quadro todo dá para ver os problemas com aberrações cromáticas de eixo, que dão contornos coloridos verdes ao segundo plano desfocado, e bolhas roxas no primeiro plano.

“Xadrez” em f/2.2 1/800 ISO100.

“Xadrez” em f/2.2 1/800 ISO100.

Crop 100%, aberrações cromáticas axiais no primeiro plano (contorno roxo nas mãos) e no segundo plano (contorno verde nas grades).

Crop 100%, aberrações cromáticas axiais no primeiro plano (contorno roxo nas mãos) e no segundo plano (contorno verde nas grades).

“Livros” em f/2 1/1600 ISO100.

“Livros” em f/2 1/1600 ISO100.

Crop 100%, não há algum ponto focal nítido na abertura máxima, bizarro…

Crop 100%, não há algum ponto focal nítido na abertura máxima, bizarro…

Crop 100%, e as bordas são terríveis, com total falta de nitidez e desfoque ruim.

Crop 100%, e as bordas são terríveis, com total falta de nitidez e desfoque ruim.

“AMP” f/2 1/640 ISO100; distância mínima de foco.

“AMP” f/2 1/640 ISO100; distância mínima de foco.

Cop 100%, o foco está no lugar certo, mas não nitidez mesmo assim.

Cop 100%, o foco está no lugar certo, mas não nitidez mesmo assim.

“Emergency” em f/2 1/800 ISO100; note as características do bokeh.

“Emergency” em f/2 1/800 ISO100; note as características do bokeh.

Crop 100%, o máximo de nitidez possível com a Yongnuo 35mm f/2, que é bem ruim.

Crop 100%, o máximo de nitidez possível com a Yongnuo 35mm f/2, que é bem ruim.

 “14St” em f/2 1/60 ISO500; ISO relativamente baixo por causa da grande abertura.

“14St” em f/2 1/60 ISO500; ISO relativamente baixo por causa da grande abertura.

Crop 100%, ponto focal sem nitidez, uma característica do projeto.

Crop 100%, ponto focal sem nitidez, uma característica do projeto.

“EXIT” em f/2 1/80 ISO100; ISO 100 numa foto em ambiente fechado.

“EXIT” em f/2 1/80 ISO100; ISO 100 numa foto em ambiente fechado.

Crop 100%, falta nitidez no centro, apesar do foco estar o lugar certo.

Crop 100%, falta nitidez no centro, apesar do foco estar o lugar certo.

Crop 100%, aberração cromática axial no primeiro plano, com bolhas roxas.

Crop 100%, aberração cromática axial no primeiro plano, com bolhas roxas.

Fechada para f/2.8 até f/8, o contraste e a resolução melhoram, tirando a aparência de “olhos embaçados” da abertura máxima. Tudo fica mais nítido e detalhado, e é possível ter momentos de brilhantismo com a Yongnuo: os arquivos saem nítidos nos lugares certos, e você vê que as fotos foram feitas por uma câmera de sensor grande. É o mesmo caso de outras primes low cost, que podem ficar praticamente idênticas as objetivas topo de linha, se não fosse um problema: como a construção é ruim e existem variações no plano de imagem, mesmo em f/8 você corre o risco de perder a nitidez porque os vidros não estão alinhados. Então este é o meu problema  com a Yongnuo: além da óptica barata, a construção também agride a qualidade de imagem.



“Flores” em f/5.6 1/200 ISO200; puxando os limites de resolução do projeto.

“Flores” em f/5.6 1/200 ISO200; puxando os limites de resolução do projeto.

Crop 100%, a Yongnuo até que funciona bem, mas numa área só do quadro…

Crop 100%, a Yongnuo até que funciona bem, mas numa área só do quadro…

Crop 100%, na outra ponta, como o plano não é “plano”, a nitidez está num ponto atrás do sujeito. O_o

Crop 100%, na outra ponta, como o plano não é “plano”, a nitidez está num ponto atrás do sujeito. O_o

“PED XING” em f/5.6 1/2000 ISO200.

“PED XING” em f/5.6 1/2000 ISO200.

Crop 100%, raro momento de brilhantismo da Yongnuo 35mm f/2.

Crop 100%, raro momento de brilhantismo da Yongnuo 35mm f/2.

“Manhattan” em f/5.6 1/500 ISO100.

“Manhattan” em f/5.6 1/500 ISO100.

Crop 100%, nitidez nas bordas…

Crop 100%, nitidez nas bordas…

Crop 100%, mas não no centro, por causa da distorção esférica do plano focal.

Crop 100%, mas não no centro, por causa da distorção esférica do plano focal.

“Truck” em f/5.6 1/250 ISO100.

“Truck” em f/5.6 1/250 ISO100.

Crop 100%, rara “nitidez” (nem tanta assim) nas bordas do quadro.

Crop 100%, rara “nitidez” (nem tanta assim) nas bordas do quadro.

“OOO” em f/5.6 1/250 ISO100.

“OOO” em f/5.6 1/250 ISO100.

Crop 100%, zero aberração cromática lateral, graças ao projeto duplo-Gauss.

Crop 100%, zero aberração cromática lateral, graças ao projeto duplo-Gauss.

“Avião” em f/6.3 1/320 ISO100.

“Avião” em f/6.3 1/320 ISO100.

Crop 100%, nitidez numa ponta do quadro…

Crop 100%, nitidez numa ponta do quadro…

Crop 100%, mas não na outra, que varia demais de posição focal.

Crop 100%, mas não na outra, que varia demais de posição focal.

“Rochedo” em f/2.8 1/630 ISO200.

“Rochedo” em f/2.8 1/630 ISO200.

Crop 100%, o arquivo mais nítido que eu consegui da Yongnuo 35mm f/2.

Crop 100%, o arquivo mais nítido que eu consegui da Yongnuo 35mm f/2.

Nem preciso citar que a distorção geométrica é alta em sujeitos 100% retos (linhas arquitetônicas e o horizonte), apesar de fácil de corrigir via software. E também nem preciso dizer que as aberrações cromáticas laterais são invisíveis, afinal estamos falando de um projeto duplo-Gauss. O que resta é avaliar o bokeh e as cores, que sempre são subjetivos de fotografo para fotógrafo. Enquanto a Yongnuo é “neutra” nas cores, equilibradas como as Canon EF, a qualidade do desfoque varia no segundo plano, dependendo das linhas retas e da distância de focagem. É pedir demais do projeto low cost, mas funciona melhor que os smartphones que reproduzem o “efeito” via software. Vale se o “look bokeh” é o que você procura, com a profundidade de campo curta.



“Taxis fora de foco” em f/2 1/1600 ISO100; cores neutras e fáceis de manipular via software.

“Taxis fora de foco” em f/2 1/1600 ISO100; cores neutras e fáceis de manipular via software.

“Folhas” em f/2 1/4000 ISO100; aparência de “vidro de ampliação” no quadro.

“Folhas” em f/2 1/4000 ISO100; aparência de “vidro de ampliação” no quadro.

Crop 100%, impossível conseguir um plano nítido com essa objetiva.

Crop 100%, impossível conseguir um plano nítido com essa objetiva.

“Flor” em f/2 1/1600 ISO100; distância mínima de foco.

“Flor” em f/2 1/1600 ISO100; distância mínima de foco.

Crop 100%, centro é bem suave, com impressão de um sonho sem nitidez.

Crop 100%, centro é bem suave, com impressão de um sonho sem nitidez.

“Roedor” em f/2 1/4000 ISO100; aparência do desfoque para isolar o sujeito.

“Roedor” em f/2 1/4000 ISO100; aparência do desfoque para isolar o sujeito.

Crop 100%, aberração cromática axial nos olhos do bicho.

Crop 100%, aberração cromática axial nos olhos do bicho.

Crop 100%, nenhuma nitidez nas bordas, com detalhes acompanhados de fantasmas.

Crop 100%, nenhuma nitidez nas bordas, com detalhes acompanhados de fantasmas.

VEREDICTO

Enfim um projeto que ultrapassa a designação “low cost”, temos de encarar a Yongnuo 35mm f/2 pelo o que ela é: uma prime grande angular de grande abertura, sem recursos para fazer nada realmente bem. E isso cai numa única conclusão para as fotos: quanto menos dinheiro você gasta, menos chances das coisas darem certo fotograficamente. Sim, mecanicamente ela se mantém como “uma peça só” apesar do preço baixo (viu, Mitakon?), tem foco automático e abertura eletrônica; é tão pratica quanto uma Canon EF “original”. Mas a variação na hora de fotografar é um problema, e fico em cima do muro sobre recomendá-la de pés juntos. Não, ela não é uma pérola do mercado de baixo custo, e sim, você vai perder alguns clicks por causa disto. Por via das dúvidas não coloque sua fotos em risco, e guarde o seu dinheiro para outra objetiva melhor.