Mitakon CREATOR 135mm f/2.8

Curto orçamento, médio telephoto, super performance

Junho/2017 – A Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 é a segunda prime da chinesa Zhong-Yi que vemos no blog do zack. Seguindo a 85mm f/2 CREATOR que conhecemos há algumas semanas, a 135mm é maior, mais longa e mais pesada, com o mesmo projeto manual e abertura máxima modesta, perfeito para baixar o custo, aqui também em US$199. A fórmula óptica é simples: 5 elementos em 4 grupos, desta vez com um de baixa dispersão para corrigir aberrações. Apesar de atender o full frame, aqui ela foi testada na EOS M APS-C, para funcionar como uma telephoto (216mm) low cost, na mesma viagem que eu fiz as fotos dos reviews anteriores (Sony A6300 para o dia a dia, Fuji X-Pro 2 com uma prime, Tokina 11-16mm para o grande angular); e caber na cota de US$500 que podemos trazer do exterior. Será que funcionou? Vamos descobrir! Boa leitura. (english)



CONSTRUÇÃO E OPERAÇÃO

Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 II

Em 10.5 x 6.7cm de 700g, eu nem preciso dizer que a primeira coisa que chama a atenção na CREATOR 135mm f/2.8 é o peso, absurdo para qualquer padrão de objetiva, premium, low cost, zoom ou prime… Ela é super pesada num tubo sólido de metal e vidros, e a construção parece super robusta, se não fosse um detalhe: ela quebrou nas minhas mãos. ¯\_()_/¯ Pois é, pela primeira vez em 12 anos de fotografia, uma objetiva quebrou enquanto eu usava, e quase colocou em risco este review. Um parafuso minúsculo soltou no anel de foco, e o ajuste parou de funcionar. Ao tentar consertá-la durante a viagem, o tubo interno inteiro separou entre o miolo óptico e os anéis de operação, atrapalhando na hora de focar. Só conseguir arrumá-la em casa depois de apertar os parafusos; fácil de resolver, mas impossível de imaginar numa situação profissional.

Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 II

Isso diz bastante sobre a qualidade das ultra-low-cost chinesas, e serve de aviso para quem pensa em economizar no equipamento: estas marcas alternativas não são extensivamente testadas como as Canon e Nikon, e é normal os problemas acontecerem. Depois de consertada e ver como é dentro, dá até pra dizer que a construção da Mitakon é boa. Com um miolo inteiro de metal, nada balança fora do lugar e ela passa a impressão de solidez, apesar do projeto como um todo ser frágil: qualquer impacto e não há para onde a força dissipar, o que pode causar desalinhamentos. Mas funciona bem como as primes de antigamente, com um apelo premium que eu não esperava dos US$199. Há até um parasol de metal embutido, como algumas Leicas, que também serviram de inspiração para as letras gravadas no metal, difíceis de apagar, com pintura branca e amarela.

Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 II

Os ajustes de foco e abertura do diafragma são feitos por dois anéis manuais. O anel de foco é de metal não emborrachado, e pode escorregar com as mãos suadas. Ele fica atrás, perto da câmera, bem ao alcance dos dedos, e tem o giro do foco mínimo de 1.5m até o infinito com absurdos 350º, levando uma eternidade para ir de uma ponta a outra, além de ser um pouco duro. É totalmente inapropriado para fotografar ação, até com objetos a distância: são 50º do infinito até os 10m, 60º dos 10m para os 5m, 70º só para os 5m até os 3m, outros 80º dos 3m para 2m (!), e mais 90º de 2m para 1.5m. Ou seja, mesmo que o sujeito se mova pouco, é demorado acertar o foco. Mas pelo menos a precisão é total; com certeza a distância que você precisa está nestes 350º de giro, e o foco é importantíssimo para garantir exposições nítidas com a profundidade de campo curta.

Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 II

Na frente o anel de abertura parece estar no lugar errado, mas é uma exigência do duplo-Gauss, com o diafragma entre os grupos. Ele é bem mais fino que o de focagem, porém mais leve de girar. Os valores são cheios em cada f/stop, com clicks de f/2.8 até f/22; não é stepless como as objetivas “cine” mas o movimento é suave, apesar dos clicks firmes (eles não sairão sozinhos do lugar). Do lado de dentro o diafragma tem nove lâminas retas que produzem as mesmas estrelas lindas que vimos na 85mm f/2, com 18 pontas nítidas a partir de f/4 até f/16. Em exposições noturnas de paisagens urbanas, dá pra ver aquelas estrelas em fontes fortes de luz, como postes. Porém em f/2.8 o oposto acontece: as lâminas aparecem na exposição, mesmo com o diafragma aberto, e o reflexo interno das peças é medonho, com “bandas” de luz “vazando” no quadro.

Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 II

Atrás uma adição curiosa é o contato eletrônico no mount, entre a objetiva e a câmera. Ele serve exclusivamente para comunicar ao EXIF a abertura f/2.8 e a distância focal 135mm, uma vez que não há motores na Mitakon, nem sensores eletrônicos para detectar a abertura selecionada. Por exemplo se você escolher f/8 na objetiva, mesmo assim aparecerá f/2.8 na câmera; elas não se comunicam de fato. E isso pode confundir o metering da câmera, que dá preferência ao valor da máquina. Se você ajustar f/8 na objetiva e também programar o f/8 na câmera, a exposição sairá completamente escura, inclusive no modo manual. O manual de instruções da Zhong-Yi (em chinês, traduzido pelo Google), recomenda deixar sempre a câmera em f/2.8 e só controlar a objetiva. O EXIF será registrado em f/2.8 para todas as fotos, mas o metering funcionará.

Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 II

Enfim o mount de metal completa a construção robusta da CREATOR 135mm, este com parafusos bem maiores que os do anel de foco; não há chance dela soltar da câmera, ainda bem. Evidente não há weather sealing e não sei nem qual é a liga metálica empregada no corpo; se não for feita de alumínio, corre o risco até de enferrujar, portanto não molhe de jeito nenhum. Atrás o elemento é profundo o suficiente para anexar o EF Extender 2X, para uma 270mm f/5.6; equiv. a 432mm no APS-C! E na frente os filtros de ø58mm são maiores que os da 85mm f/2 (ø55mm), incompatíveis entre elas. Eles vão dentro do parasol embutido, que desliza para frente/trás como nas Canon EF 300mm f/4L ou 400mm f/5.6. É um projeto interessante pelo emprego de metais na construção, a operação suave do foco e da abertura, e o preço baixo de US$199. Se cobrassem US$999 eu não me sentiria lesado pela Mitakon, e dá para recomendá-la para quem está montando um kit manual.



QUALIDADE DE IMAGEM

“Grand Canyon” em 1/250 ISO100.

“Grand Canyon” em 1/250 ISO100.

Com 5 elementos em 4 grupos, um deles de baixa dispersão, a Mitakon CREATOR 135mm f/2.8 é a objetiva com projeto óptico mais simples que já usei no vlog do zack. Nunca vi um instrumento com menos de 6 elementos, e só o adaptador Canon Close-Up 250D tem menos peças (só duas lentes); mas ele não gera imagens sozinho. E por incrível que pareça, a performance da Mitakon está entre as melhores. Sim, é bizarro o que eu vou escrever: a 135mm f/2.8 é das melhores objetivas que eu já usei, e por apenas US$199. A resolução é inacreditável em qualquer abertura; o contraste é perfeito em qualquer situação de luz; e não há qualquer aberração cromática para contar história, nem de eixo, nem lateral. Distorção geométrica? É zero. Vinheta em abertura máxima? De leve. Todas as fotos com a EOS M, exceto as marcadas por EOS 6D, sem registro da abertura (embora eu lembre algumas de cabeça). Alguns arquivos raw disponíveis no Patreon.

“Monument Valley” em 1/800 ISO100.

“Monument Valley” em 1/800 ISO100.

Mesmo em f/2.8 a resolução é intacta de ponta a ponta, difícil de avaliar em fotos do dia a dia. Como a maioria dos sujeitos são tridimensionais, eles não estão na mesma distância por todo o plano focal; logo não dá para ver dois lados nítidos ao mesmo tempo, ainda mais na profundidade de campo curtíssima do telephoto. Mas o que cair no plano de imagem é super nítido na abertura máxima. É um exemplo da facilidade de projetar uma objetiva telephoto, que nada mais é que um tubo longo com dois pares de grupos positivos e negativos; simples assim. A única aberração visível vem das lâminas da abertura, que refletem a luz do tubo metálico interno e tiram a nitidez em zonas claras. Não é um defeito óptico, mas de projeto: a luz reflete no metal, que não é opaco.

“SP” com a EOS 6D em f/2.8 e em f/4, 2” e 3.2” ISO100; note a correção da vinheta com 1 stop fechada.

Crop 100%, o vazamento de luz na abertura máxima, reflexo das lâminas internas, e as estrelas logo em f/4.

“Mesquite Sand Dunes” em 1/800 ISO200.

“Mesquite Sand Dunes” em 1/800 ISO200.

Crop 100%, o que cair no plano focal, que é curto mesmo no telephoto, estará em foco.

Crop 100%, o que cair no plano focal, que é curto mesmo no telephoto, estará em foco.

“Zion” em 1/250 ISO200.

“Zion” em 1/250 ISO200.

Crop 100%, detalhes para paisagens ao pôr-do-sol, em abertura máxima.

Crop 100%, detalhes para paisagens ao pôr-do-sol, em abertura máxima.

“Reflexos” em 1/200 ISO100; note como a luz reflete nas lâminas, mesmo na abertura máxima.

“Reflexos” em 1/200 ISO100; note como a luz reflete nas lâminas, mesmo na abertura máxima.

Basta fechar para f/4 e resolvemos os problemas dos reflexos internos. O arquivo fica muito mais limpo e claro, uma surpresa pra quem vem das zoom de kit, tipo 18-135mm. Em qualquer fabricante, estes modelos de abertura variável já estão no f/5.6 em 135mm, com imagens suaves e contraste pobre. A Mitakon é muito mais nítida e com 1 stop de vantagem, e a razão de tê-la no kit. E vai assim para f/5.6, f/8 etc, até o limite de difração do sensor da sua câmera. Para quem trabalha com paisagens detalhadas e precisa do máximo de resolução, pode ver a CREATOR como mais uma alternativa. Prime é prime e não importa o preço: a performance óptica é maior que as zoom.



“Aero” em 1/800 ISO100.

“Aero” em 1/800 ISO100.

Crop 100%, resolução altíssima para qualquer tipo de trabalho.

Crop 100%, resolução altíssima para qualquer tipo de trabalho.

“S” em 1/1000 ISO100.

“S” em 1/1000 ISO100.

Crop 100%, prime é prime, sem a suavidade dos projetos zoom.

Crop 100%, prime é prime, sem a suavidade dos projetos zoom.

“Boat” em 1/400 ISO100.

“Boat” em 1/400 ISO100.

Crop 100%, a nitidez é tão alta que causa moiré na EOS M, em sujeitos orgânicos.

Crop 100%, a nitidez é tão alta que causa moiré na EOS M, em sujeitos orgânicos.

“Capitol Reef” em 1/400 ISO100.

“Capitol Reef” em 1/400 ISO100.

 Crop 100%, prints imensos podem ser feitos a partir de uma objetiva de US$199.

Crop 100%, prints imensos podem ser feitos a partir de uma objetiva de US$199.

“Pasto” em 1/200 ISO100.

“Pasto” em 1/200 ISO100.

Crop 100%, qualquer perda de nitidez é causada pelo movimento da câmera no telephoto.

Crop 100%, qualquer perda de nitidez é causada pelo movimento da câmera no telephoto.

“Bryce Point” 1/500 ISO400.

“Bryce Point” 1/500 ISO400.

Crop 100%, puxando os limites do sensor de arranjo Bayer da EOS M.

Crop 100%, puxando os limites do sensor de arranjo Bayer da EOS M.

O diferencial também está nas aberrações cromáticas laterais e de eixo; invisíveis nas minhas fotos. Enquanto a Canon EF 135mm f/2L USM “explodia” na abertura máxima, com bolhas roxas em itens cromados, a Mitakon não mostra nada. É aquela velha vantagem da especificação “modesta”: como ela já parte do f/2.8, os elementos menores de vidro tem beeem menos dificuldade para focar a luz. Então, de novo, é uma surpresa pelo preço e design simples, que nunca falham a entregar arquivos perfeitos. Às vezes eu gostaria que os fabricantes principais oferecessem primes f/2.8. Eu conheço as vantagens destes projetos mas só temos nas marcas alternativas, uma pena.

“Kolob Road” em 1/250 ISO100.

“Kolob Road” em 1/250 ISO100.

Crop 100%, nada de linhas coloridas ao redor de sujeitos gráficos.

Crop 100%, nada de linhas coloridas ao redor de sujeitos gráficos.

“Topo” em f/6.3 1/1600 ISO100.

“Topo” em f/6.3 1/1600 ISO100.

Crop 100%, aberração cromática lateral zero como toda prime duplo Gauss.

Crop 100%, aberração cromática lateral zero como toda prime duplo Gauss.

“Bairro” com a EOS 6D em f/8 1/500 ISO100.

“Bairro” com a EOS 6D em f/8 1/500 ISO100.

Crop 100%, mesmo nas bordas do full frame o CA é invisível.

Crop 100%, mesmo nas bordas do full frame o CA é invisível.

Por fim as cores, a vinheta e o bokeh não geram muito assunto. Com a EOS M eu pude manipular os arquivos perfeitamente para atingir os tons das paisagens que visitei; nada de problemas com sombras azuis ou highlights amarelados. A vinheta é discreta em f/2.8 e invisível logo em f/4. E a qualidade de desfoque é difícil de avaliar no telephoto: sempre será suave se você fotografar com a profundidade de campo curta, e dá para separar bem o sujeito do fundo. Não há nada de errado nem de diferente, como “bokeh balls” ovais. É um desfoque neutro mas que funciona muito bem.

“Eye” com a EOS 6D em f/2.8 1/250 ISO1250 aparência do desfoque no foco mínimo.

“Eye” com a EOS 6D em f/2.8 1/250 ISO1250 aparência do desfoque no foco mínimo.

Crop 100%, nitidez é boa mesmo na abertura máxima.

Crop 100%, nitidez é boa mesmo na abertura máxima.

“Eye II” em f/2.8 1/250 ISO1250; aparência do desfoque.

“Eye II” em f/2.8 1/250 ISO1250; aparência do desfoque.

Crop 100%, resolução no limite do sensor da EOS 6D.

Crop 100%, resolução no limite do sensor da EOS 6D.

“Desert Flower” em f/2.8 1/2500 ISO100.

“Desert Flower” em f/2.8 1/2500 ISO100.

Crop 100%, nitidez do plano focal curtíssimo.

Crop 100%, nitidez do plano focal curtíssimo.

VEREDICTO

Testar objetivas ultra low cost sempre dá “pano pra manga” para aquele argumento: o equipamento não importa para fazer boas fotos. Com a EOS M ($299) + CREATOR 135mm f/2.8 (US$199), eu fiz mais clicks vendáveis nesta viagem, do que a Sony A6300 + E PZ 16-50 (US$1149) ou Fuji X-Pro 2 (US$1699) + XF 35 f/2 (US$399). Por causa da distância focal longa, é mais fácil gerar composições interessantes de paisagens; coisa que eu nunca deixo faltar no kit quando vou viajar. Se não fosse o problema no anel de foco, eu julgaria até a construção perfeita. A operação é suave e fácil, e opticamente ela entrega os resultados de uma prime com abertura modesta: resolução intacta na abertura máxima, perfeição logo em 1 stop fechada (f/4), e zero aberrações cromáticas. Se você precisa de uma telephoto prime, ela não fica muito melhor do que isso. Boas fotos!